Archive for ‘Poesia’

21 de abril de 2011

Céu de outono

por lnbrandao

Por POETRIZ

O céu finalmente manifestou seus sentimentos. Está um céu de outono alto e o ar está limpo e fresco. Todo mundo parece ter soltado um suspiro de alívio e expulsado a melancolia de tantos dias.

Xinran in “As Boas Mulheres da China”

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26 de janeiro de 2011

Precisa-se – Clarice Lispector

por lnbrandao
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Sendo este um jornal por excelência,
e por excelência dos precisa-se e oferece-se,
vou por um anuncio em negrito:

Precisa-se de alguém homem ou mulher
que ajude uma pessoa a ficar contente
porque esta está tão contente que não
pode ficar sozinha com a alegria,
e precisa reparti-la.

Paga-se extraordinariamente bem:
minuto por minuto paga-se
com a própria alegria.

É urgente pois a alegria dessa pessoa
é fugaz como estrelas cadentes,
que até parece que só se as viu depois que tombaram;
precisa-se urgente antes da noite cair
porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possí­vel e fica tarde demais.

Essa pessoa que atenda ao anúncio
só tem folga depois que passa
o horror do domingo que fere.

Não faz mal que venha uma pessoa
triste porque a alegria que se dá
é tão grande que se tem que a repartir
antes que se transforme em drama.

Implora-se também que venha,
implora-se com a humildade da
alegria-sem-motivo.

Em troca oferece-se também uma
casa com todas as luzes acesas
como numa festa de bailarinos.

Dá-se o direito de dispor da copa
e da cozinha, e da sala de estar.

P.S. Não se precisa de prática.
E se pede desculpa por estar num
anúncio a dilacerar os outros.

Mas juro que há em meu rosto sério
uma alegria até mesmo divina para dar.

C.L.

19 de janeiro de 2011

Tenho tudo, que me leva ao Nada

por lnbrandao

“Tento me concentrar numa daquelas sensações antigas como alegria ou fé ouDesenho esperança.Mas só fico aqui parado, sem sentir nada, sem pedir nada, sem querer nada.”

4 de janeiro de 2011

Receita de Ano Novo

por lnbrandao

OgAAAGNS146i7cEO_rONiQQakyHC5OurV_WDvXdmtRVay22kN91bEXrxZZcs1nFF3BHh8hMC4hxjoHm489l9OCKLT2IAm1T1UPV5hBPbZCLhqDNJfQPMCmk0LzakPara você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Carlos Drumond de Andrade

21 de dezembro de 2010

TEMPO… LAVOURA ARCAICA

por lnbrandao

 

“O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor. Embora, inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento. Sem medida que eu conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza. Não tem começo, não tem fim. Rico não é o homem que coleciona e se pesa num amontoado de moedas, nem aquele devasso que estende as mãos e braços em terras largas. Rico só é o homem que aprendeu piedoso e humilde a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura. Não se rebelando contra o seu curso. Brindando antes com sabedoria para receber dele os favores e não sua ira. O equilíbrio da vida está essencialmente neste bem supremo. E quem souber com acerto a quantidade de vagar com a de espera que deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco de buscar por elas e defrontar-se com o que não é. Pois só a justa medida do tempo, dá a justa ‘atudeza’ das coisas”

(Raduan Nassar)

19 de dezembro de 2010

“Pessoa na pessoa”

por lnbrandao

Alberto Caeiro

Novas Poesias Inéditas

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : “Fui eu ?”
Deus sabe, porque o escreveu

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