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4 de agosto de 2010

Salvação de um Domingo, 01 de agosto

por lnbrandao

Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas caírem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.

Caio Fernando Abreu

 

 

Salvação de um Domingo
01 de agosto.

Encostar a cabeça, o queixo, devagar na mão, apoiado pelo braço sobre a mesa, e lembrar que aquela podia ter sido a primeira imagem que tivera de mim. Assim começava o dia em que vi teu olhar ao fechar o portão do condomínio que moro e voltei para cama para não mais dormir, mas para poder acordar direito, procurar na cama o calor, ainda quente, deixado por ti no lado da cama vazia, não, vazia não, cheia de marcas, lembranças, lençóis e fronhas amassadas, teu cheiro, o cheiro que em outros tempos seria de uma lembrança triste e sem esperança, não, esperança não, em outros tempos teria sido vontade de alguma coisa ser realizada. Passei horas na necessidade de ficar ali e dormir e sonhar e dormir e sonhar e não mais acordar, mais as vezes fechava os olhos e sentia teu cheiro, do teu corpo, do meu corpo no teu corpo, da tua boca sorrindo em hálito de quem foi acordado na madrugada por um sussurro no ouvido, enquanto lutávamos pela nossa primeira vez.

Primeira vez em que eu estreava o meu desejo ancestral guardado em mim. Torcia para que fosse bom, ou que fosse ruim, sei lá, não sabia como receber aquilo que vem de dentro, como acho que ainda não sei. Pergunto-me aqui na mesa em silencio quase eterno, pois com o vazio da casa parece que tudo no mundo parou. Pergunto-me, se estou preparado para o que vem de dentro de ti, se a fala é pouca o verbo é mudo e os sentidos não fazem sentidos. Eu em minha vida de atuar, nunca havia estreado duas vezes no mesmo dia, nunca antes havia experimentando a sensação emotiva das emoções num ato sem ensaio. Eu não havia ensaiado, eu não sabia que texto dizer depois do dito ou do inaudito, muito menos depois do desdito. Sim, depois de desdizer o que ainda viria a dizer eu disse. Lembrei de sobressalto que antes mesmo de dizer o que eu havia dito eu havia desdito. Prometi a mim e a ti que não diria, sim foi assim logo após uma cena de casamento mal sonhado, de um almoço de silencio estilhaçado pelo nó na garganta de quem mais uma vez queria se salvar, de quem não queria para si mais promessas, nem mesmo esperanças, e sim qualquer coisa que não me levasse a acreditar que um dia tudo seria bom, a não ser que esse dia fosse hoje. Sim depois de dizer que não diria. Eu disse.

Para homens que lutam dias a fio pela sobrevivência diária na selva de desencontro, lhes restam a amargura dos desencontros diários para sobreviverem dias a fio. Para as mulheres que sonham noites em claro pela eminência de amparo na selva de desencontro, restam a doçura dos filhos dos desencontros nas noites de amparo pela eminência de claros sonhos. Para os amantes, o AMOR. Agora faço a pergunta que fiz há um ano e em outro relato. Teria eu dito aqui “amor”? Sim foi o que eu disse sem jeito, não, sem jeito não, disse com todo jeito e naturalidade que se diz aquilo que se sente, aquilo que vem de dentro e só se percebe depois que se disse. Não sei o que foi maior… Se o tempo que fiquei sem dizer, ou o tempo depois que eu disse. Como que perdido na selva e só se ouve de longe os tambores de uma tribo escondida, o deserto confuso se fez. Parecia um ritual, se celeste ou diabólico não sei. Sei que era inverno, você mencionara isso, lembra? Alguma coisa sobre ser inverno e ventar muito, que o vento deixava manchas de poeira nas roupas pregadas nos varais da sua cidade. O sol sobre o signo de leão começava a rugir e os sacerdotes a iniciarem… Algo orgíaco, não sei… Três palavras foram ditas… O mundo inteiro respira… Eu pude sentir, um tambor dentro de mim ou de ti não sei, começa a tocar, e fui tomado de subido na sensação de quem cai num abismo sem volta e por isso me agarrei em ti.

Retiro do queixo a mão que se apoiava na mesa e embaraço os cabelos como que desajeitados pelo vento ou pelas lembranças. Procuro-te ver sentado a minha frente e a imaginar que estamos ali por uma eternidade a contar casos um para o outro sem se preocupar com as horas, pois o que importa é que estamos nos conhecendo, que queremos dizer como somos, ou o que somos, se tivéssemos uma bula, entregaríamos ao outro. Procuro te ver daqui a muito muito muito muito muito tempo. Dizendo, veja ai: descrição, posologia, indicação, contra-indicação, efeitos colaterais, reações adversas, cuidados de conservação, advertências e superdosagem. E lembro que visitamos uma mulher que prometo falar dela um dia em um conto que chamarei de, “Duque e uma mulher de sorte”, lembro que caminhávamos na rua, e que falávamos besteira e que um gato, sem querer eu juro, eu vi, um gato sem querer se jogou apresado debaixo de um carro e ficou se debatendo no meio da rua e nós sem querermos olhar, olhávamos, enquanto o gato nos fazia lembrar que existe o fim mas que nós estávamos ali no começo sem saber nem como desejar esse fim.

Talvez fugir, ligar para um amigo ocupar o domingo. Talvez eu devesse ler, Clarice, Caio, Pessoa, Drummond, talvez ver TV, ouvir musica, qualquer coisa que ocupasse o domingo, ali sentado na mesa um copo de água me lembrou de sua cortesia antes de irmos pra cama. E me lembrou que eu queria te dar algo que fizesse lembrar-se de mim, e que fosse para ti algo que te servisse mesmo sem a lembrança de mim, um amuleto talvez, me empenhei em produzir em duro papel algo que, dizem os chineses, traz sorte. Eu queria te escrever sobre o meu segredo, estava tão mais tranqüilo, mais seguro, já havia inaugurado as três palavras que nos separavam um do outro, mais eu queria te dar algo como que em segredo, já não havia mais o medo de me trair, mas, o que dizer depois disso? O que dizer para o outro depois que eu te amo colocou todos os meus fantasmas pra correr? Assustei-me com a pieguice ou a banalidade com o que poderia tratar o assunto, com a que eu posso estar agora tratando. Só queria te dizer que… Assegurar-te que guardaria em segredo dentro de mim o que sinto por ti. É preciso preservar ate mesmo o que deve ser dito.

Não levanta antes que eu te ligue. Dorme. Dorme. Você me disse antes de ir. E essa viagem quantas horas teriam, pela manhã sou sonâmbulo, não obedeço nem desobedeço, nem sei se acordei ou se ainda tem algo dentro de mim dormindo. Ficarei assim ate que se faça o domingo e quando mais eu demorasse ali sem nada fazer menos teria que procurar na estante poeira ou ansiedade para salvar o domingo, fiquei por horas repetindo tudo isso refazendo em mim tudo, a minha estréia em ti, o gosto de ti em mim, que ate agora não sei decifrar que gosto tem, não encontro nada que eu possa comparar, apenas posso chamar teu gosto que se parece contigo, saliva, suor, hálito. Sem promessas que me tragam esperanças, não quero mais promessas, nem esperanças, não mais, ou se tem fé ou não. Ou se acredita ou não. Ou se vive.

Luciano Brandão
agosto – 2010

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