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4 de julho de 2009

Estimulo de Amor Para os Sentidos

por lnbrandao

I

Não havia sol, nem mesmo lua, fazia
calor como se fosse dia, mas era noite quente que se fazia, em noites assim se
corre grande risco, risco que tem em si a precipitação do dia, em vez da tranquila,
morna e áspera imposição da noite quente que se fazia. Era uma hora da noite em
que nada tinha par fazer, àquela hora depois do trabalho, caminho de casa,
tempo sobrando para pensar em coisas corriqueiras e seguras ou que seguramente faria
chegar em casa, arfar jogado na cadeira ou no sofá, espera uma inquietude de
estar ali, talvez um banho, talvez pegar o telefone e ligar para alguém, um
amigo, amiga, algo que alargasse o comprimido do apartamento que ainda não
tivera nem tempo de abrir as janelas, talvez mesmo a necessidade de falar com
alguém e contar besteiras ou qualquer coisa que escondesse ou expulsasse a
solidão a qual havia optado.

Parou um pouco no meio da noite, na
calçada a caminho de casa, pensou, pensou, e chegou a conclusão de que devia
ser necessário estar ali, parado, sem nada fazer, e o mundo acontecendo, –
melhor não ir para casa amanhã é sábado, talvez fosse uma escolha segura que
seguramente mudaria seu habito diário, sem estar seguro em casa, sem arfar,
sofá, ligações desnecessárias, fuga a que havia optado. Se o mundo se fazia
pelas opções hoje ele seria por decisão própria, sentou-se num banco, num banco
de um passeio publico no meio de uma avenida onde tudo acontecia, ou pelos
menos um pouco de cada coisa acontecia, pensou melhor, do lado do seu mais dois
bancos um de cada lado, vazios, a sua frente três, também vazios….

Mas adiante, mais um conjunto de três
bancos de um lado e mais três do outro, mudos e surdos, alguns só surdos
imaginava, pois as vezes ouvia-se sons que acompanhavam as mãos, como quando
quem fala pelo verbo as vezes necessita das mãos para alcançar ou talvez tocar
o inatingível, explicando-se para se mesmo que o verbo é pouco, e que
necessitamos de extensões de nosso pensamento, imaginou que ali, os mudos,
surdos, surdos e mudos, talvez necessitassem de sons que nem precisariam fazer
sentido mais que acompanhassem ou tocassem aonde as mãos não chegariam.

Um homem atravessa a rua, acompanha-o
com os olhos, ver parar do outro lado esticar o braço e subir num ônibus, nem
vira que linha era, talvez estivesse pensado, de um lado do passeio um mulher
vinha, cansada, percebia-se pelo andar, não era triste, apenas deixou que o
ardor da noite complementasse o dia, seguramente iria para casa, enquanto
pensava, a mulher passa, acompanha seus passos que agora já vão alem dos mudos,
de lá um homem bonito alto vem em sentido contrario, arruma-se no banco,
averigua o cabelo, a camisa, a postura e deixa que o homem passe, se notou
alguém sentado ali, não olhou, se olhou fingiu que não notou.

Continuou a olhar o homem que descia
em direção contraria dos que há essa hora vão para casa, não tinha mais
interesse nele, mesmo que tivesse, sabia que era pura ilusão, ele se ia, a
menos que levantasse e conseguisse alguma forma de chamar atenção dele, só lhe
restaria a esperança de um dia revê-lo e que ele notasse, mas é um homem bonito
de vê, se imaginar coisas, olhou e só parou quando percebeu que no banco ao
lado um casal havia sentado.

Ela chorava, ou pelo menos estava tão
triste que parecia chorar, ele segurava suas próprias mãos, como se não
quisesse que nada além de, do que fora dito fosse arrematado ou desdito. O
ônibus dela vinha restou-lhe um beijo em cada lado do rosto, um abraço e aquela
frase que vinha segura dele: a gente se fala. E os dois se foram. Não
desistiria, hoje o mundo para que fora criado se faria sozinho, mesmo que para
isso levasse duas ou três gerações, era inverno, o sol se vazia em câncer, os
meses depois das chuvas aqui em nossa cidade parecem invadir os que ainda
virão, imaginou-se um pouco na primavera, quente e abafante, ouvira certa vez um
amigo dizer que a primavera tem uma alegria perigosa no ar, mas o vento seco
dessa época assanhara-lhe o cabelo, pegou um livro na mochila, pareceu ler, mas
antes que lesse parou e ficou a pensar no gosto doce ou amargo das coisas que
somos feitos, teria em fim desistido de estar ali, desistido de afrontar o
mundo a espera que ele se fizesse e caminharia as presas para sua ordem
habitual, se não fosse dado também ao habito de pensar devagar naquilo que
havia pensado, foi quando repetiu para si: das coisas que somos feitos…

Levantou a cabeça, como se faz quando
se tem um livro na mão e se ler algo muito forte ou mesmo bem banal, levantou a
cabeça para pensar com o livro na mão: o gosto doce ou amargo. No banco a
frente um rapaz, parecia homem feito, mas era rapaz, percebia pela postura que
se sentou, as roupas que usava, tinha uma barba rala de dois ou três dias, mãos
largas, grandes, dedos próprios para tocar nas coisas, nem se acomodou melhor
no banco, resolveu acender um cigarro e continuar olhando disfarçado, talvez
ele notasse o sinal de fumaça. Enquanto fumava, tentou adivinhar o rapaz,
idade, nome, o que fazia, ate se perder naquilo que ele queria, se era do tipo
romântico, brincalhão, atencioso, de mau jeito percebeu que o rapaz lhe via, e
os dois ficaram ali fingindo estar esperando alguém, olhavam para um lado e
para o outro e para frente também, bem rápido, só para confirmar que o outro
ainda estava ali, foi meio sem jeito também que se deu conta que só olhava para
frente, tentou fingir que estava perdido a pensar no que havia lido, mas o
livro já tinha sido fechado, e como quando somos pegos em flagrante riu,
sorriso vago sem expressão apenas um deslize, e rio mais ainda, um riso mais
largo, quando viu que o rapaz também rira, mais ficaram ali, a olhar um para o
outro, as vezes a disfarçar para os lados, mudavam de posições, cruzavam as
pernas, essa era forma, essa era regra.

Meio século se passara, ora riam, ora
se olhavam e se perguntava, o que devo fazer?  E ainda assim não saíram dali, um homem chega,
senta-se no banco ao lado do seu, olha, não era dos mais bonitos que já tinha
visto naquele calor da noite, os surdos, mudos já haviam ido embora, restavas
apenas três, e um som que acompanhavam as mãos, pensa que talvez o ato de falar
seja inerente ao homem mesmo que esse não fale, o som sempre vai estar presente
nas mãos, que muitas das vezes antecede o pensamento, foi quando lembrou das
mãos com dedos de se tocar nas coisas do rapaz a sua frente, olhou eram as
mesmas bonitas de se ver, tinha vontade de pegar em mãos assim, olhou pras mãos
do homem ao seu lado e nem eram das mais bonitas daquela noite quente, mais
estendiam seus pensamentos, e faziam sinal para rapaz que se foi enquanto o homem
que nem era dos mais bonitos segui-o.

“Então eu te disse que o que me doíam essas esperas, esses
chamados que não vinham e quando vinham sempre e nunca traziam nem a palavra e
às vezes nem a pessoa exatas. E que eu me recriminava por estar sempre esperando
que nada fosse como eu esperava, ainda que soubesse.”

                       Caio
Fernando Abreu

II

Ter a votante de que tudo seja mais
claro, mais limpo, menos torto, indeciso, era o que lhe forçara a sair da cama,
detinha-se durante tempos na cama depois de acordar, rolava sempre de um lado
para o outro procurando a posição que lhe levaria ao sono novamente, a manhã já
se fazia, sabia pelo calor dentro do quarto, procura alguma coisa para
acreditar, seria incrível ainda estar vivo, não sentia mais medo, muitas coisas
já não lhes causavam dor ou mesmo alegrias, preenchia as horas que se faziam
com amplo vazio, foi pensando nisso que desejou que tudo seja mais claro, mais
limpo, menos torto, indeciso e levantou.

Mesmo sem acreditar nas coisas que
vivera, apegava-se a superstições banais, como levantar da cama e ser o pé
direito o primeiro a tocar o chão, respeitar rituais, como escolher uma musica
aleatoriamente para representar seu dia, tomar banho o que indicaria ao corpo
que enfim acordou, mesmo sabendo que lá dentro alguma coisa continuaria a
dormir, não abrir nenhuma porta ou janela ate que seu dia necessitasse começar e
o fazia também por opção pois aos vizinhos se limitava ao bom dia, boa tarde,
boa noite. O que levaria horas, levou minutos, pois levantara com um propósito
e isso fizera ter ânsia pelo dia. Depois disso, demorou-se um pouco no
computador, abrir e-mail’s, responder alguns, ver noticias, msn, fazia parecer
que já estava em atividade cotidiana.

A tarde começava, sabia pela fome que
sentia, não era dado a olhar horas, apenas deixar que o dia se fizesse e o
pressentia, não iria fazer comida em casa hoje, decidiu de repente,

– hoje não quero ser do tipo que vai
para cozinha ouvindo “com açúcar com afeto”. Iria tomar outro banho, o calor
seco das tardes de julho deixa um suor preguendo, precisava reiniciar o ritual,
mudou a musica, preferiu algo internacional, algo que não conseguisse entender
a letra, para não se aprofundar, algo que só o som levasse a uma alegria
devastadora como se a letra dissesse “levanta, sacode a poeira dar a volta por
cima” ou “ando meio fadigado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis”
o que preferiu assim pois nem sabia que musica era essa qual quer coisa que
parecesse dizer isso tava valendo.

Saiu.

Em algum momento encontrou um homem
que vinha em sua direção, alto, de um falso magro, vestido sem preocupação,
jeans, camiseta, mochila, desses que trabalham a semana toda e fazem cursinhos
nos sábados, olharam-se ao passar um pelo outro, ariscou um riso propositado,
canto de boca, imitando um riso safado, mas apenas algo que escondesse o
interesse de transformasse aquele encontro em mera coincidência das ruas vazias
de sábado a tarde, mais adiante pensou, olhar para trás, olhou o homem também
olhara ao mesmo tempo, teria sido mera coincidência ou já era probabilidade,
precipitou-se em outra olhada, os dois se viram de novo no mesmo movimento,
riram, pensou, o que mais precisa ser dito, sua mão antecedeu o pensamento num
rápido aceno. Parou na esquina, o homem veio, cumprimentos, desajeitado,
lembrou da pessoas que passariam e viriam os dois desconhecidos a se falarem,
para alguns as regras são mais severas, pensou também no banco na noite
passada, suas mãos não falaram, seus pensamentos esbarravam na testa, hoje
acordara para algo mais claro, mais limpo, talvez o sol, o calor, e que talvez
ainda não fosse tarde demais, convidou para sua casa.

Apartamento quente, fechado, silencio
entrecortado pelo barulho de vida dentro de algum outro apartamento, a sala
muito próxima a cozinha permanecia com a aquele cheiro que vinha da pia de
louças sujas há dias, livros povoavam o espaços, indicando lugares que
seguramente se acomodava, o asco de cigarro denunciava o cinzeiro cheio, a
desordem habitual causava-lhe certo desconforto em receber visitas, pensara
talvez o que podia lhe render a primeira impressão, melhor fugir para o quarto,
o que podia soar como propósito precipitado, a cama desfeita, bilha de roupas
no canto do chão, um cheiro insone de pele sozinha, trocando a roupa de cama
talvez crie um espaço mais propicio ou delimitaria uma ordem em meio a bagunça despretensiosa
de quem vive só, se o convida-se a estender a colcha talvez quebrasse o gelo,
ou mesmo justificaria uma cumplicidade, proposta aceita com um riso de quem
compreende o desconforto, musica, tava a fim de ferrar o silencio, talvez
descongestionasse o papo que não se fazia, deixou o outro ali a estender a
colcha de cama e foi procurar algo para ouvirem, pensou mais uma vez, nada que
aprofunde, persistia numa espécie de receio de ir longe demais, encontrou algo
que um amigo deixara por lá, depois de algum encontro de amigos, algo que nem
sabia o que era, apenas não entendia e isso bastava, o homem, branco, falso
magro, barba bem baixa, bonita, fina, já estava deitado de um lado da cama,
apanhara umas almofadas espalhadas pela casa e colocara sobre a cama como que
dando um toque final ao refugio, sentou-se com a cabeça pro lado contrario,
pediu que o outro ficasse a vontade, como se isso fosse o principio de uma
grande conversa, pediu que se sentisse a vontade, se quisesse podia tirar os
sapatos, as meias, ficar a vontade, como se isso quisesse dizer, ta contigo,
faz alguma coisa. E agora, os dois ali, respiração audível, a musica boa do cd
que o amigo esqueceu, nenhuma palavra, talvez era isso que queriam, nenhuma
palavra, apenas se perguntavam em silencio, por onde é que se começa? Talvez,
um sorriso ou outro que só se via não ouvia, um sorriso apenas desenhado na
boca denunciava o que podiam estar pensando, desejando, sim pois era sorriso
acompanhado de olhares atentos ao mais simples dos movimento, como se o mover
de um braço desse inicio ao que provavelmente buscavam, foi quando lembrou de
seu gosto pelas mãos, pensou, se forem bonitas eu pedirei para tocá-las, antes
que seu pensamento se fizesse o outro pois os pés em sua perna, apoiando todo o
solado na perna, e comparando o branco do pé de um no branco da perna do outro,
e desta vez fora os pés que precipitaram o pensamento, sentiu que o pé do outro
suava e que esse suor podia estar em todo corpo, arriscou falar, foi puxado
pela perna de leve, apenas um puxãozinho, como que diz chiiii, silencio, se
olharam, a tarde já ia com ela a luz que insultava o quarto, decidiu não dizer
mais nada, apenas mudou de lado, ficaram frente a frente, e sentiu uma mão
tocar a sua, lembrou-se de averiguar antes que a luz se fosse de vez se eram
bonitas, eram, percebeu só em pega-las, mãos vividas, bem torneadas, veias a
mostra dedos longos, feitos para tocarem nas coisas e desta vez dedos que
queriam tocar nas coisa, pois havia perdido de suas mãos e de seus olhos as
mãos do outro, a musica já havia mudado, era uns desses CDs de mp3 cheios de
musicas variadas, Maria Bethania, iniciará o prelúdio dos dois, que sem nem
mesmo se desfazerem das roupas, ficaram umas dez musicas sem se largarem,
rolando juntos na cama, o outro pediu, posso te cheirar por inteiro, explicando
em seguida, que aproveitassem a pausa, para ir ao banheiro, colocar outro cd
podia ser Bethânia se tivesse outro, e que já voltassem nus para a cama, não
tinha essas coisas em ver alguém se despir, ou sentia tesão pela pessoa ou não,
tanto faz vestida ou nua, não era o Streep
Tease
que ira ajudar, riram, achou, que cara doido, descontraído pelo
menos, mudou a musica, bebeu água, voltou pra cama e depois como que estendido
para exames o outro Pegou em sua mão, e começou a cheirar, e cheirou cada dedo,
osso, punho, e foi cheirando em todas as parte, virando e revirando o corpo que
já manipulava como sendo seu, colocou o nariz em todos os lugares, sentiu
cheiros íntimos, cheiros que só nós sabemos que temos, depois de tanto calor,
cheiro entre as pernas, peitos, foi quando parou mais ou menos pela lombar e lá
colocou a língua, tava iniciado mais um sentido, depois da visão, audição,
tato, olfato, agora o paladar, pensava, enquanto o outro percorria sua língua
ora fazendo cócegas, ora dando estímulos a sensações que nunca antes havia
experimentado, dentro de si gritava, Uhuuuu! Somos comestíveis. E, como se
alguém apertasse o botão, virou e vou pra cima do outro, retribuindo em triplo
tudo o que oferecera, Maria Bethania cantava mais alto com o passar das horas, ainda
ficaram um contra o outro, ou melhor, um pelo outro durante tempos, desbravando
cada pedaço da cama, deve uma hora que pensou em propor outros arredores, mais
não deve tempo, foi puxado para o meio da cama, pois já estava prestes a cair
pelo canto, de repente sem parar o outro para, assim como só se oferece por
isso não parou ainda estava ali, mais não retribuía, pediu um tempo pra ele,
estava prestes a terminar o que ainda de fato não teria sido consumado, e
deitaram um do lado outro, devagar calmos, pensou Lilite, talvez tivesse esse
perfume, de saliva e suor, e sangue também, foi quando o braço do outro
entrecortou o escuro do quarto alcançou a mochila pegou algo que não pode ver,
mais logo percebeu pelo barulho de plástico que rascava, agora estavam prontos
para recomeçarem, disse o outro dividindo os preservativos, daí então se
entregarão aos enlaces sem reservas a pernas, os braços disputavam
coincidências no espaço…

Agora já ta tarde, tenho que ir, já
se fazia sete horas que estavam ali, nem mais uma musica, só o silencio do fim
de semana que dorme, como se o sábado já anunciasse o domingo, levantou acendeu
a luz, e começaram a se vestir, nem mesmo um banho? Tentou propor talvez para
prolongar a noite ou recomeçar, não, respondeu já abotoando a calça, tenho q ir
mesmo, vestiu-se não adiantava tomar banho ele iria e teria que levá-lo até
porta, enquanto o outro procurava juntar todos seus pertences, olhou-se um
pouco no espelho, foi quando percebeu a marca no pescoço. Com certa raiva
inútil, pois se sentia um pouco vaidoso com aquilo, tentou brigar, droga, isso
é feio, não se faz, a resposta do outro foi imediata e satisfatória, que é isso
quando verem sentirão inveja, olha lá, aquele fez amor ontem, ou algo assim que
teria dito, e o beijou, e disse é porque foi amor o que eu fiz. E se foi.

Teria mesmo tido amor? Colocou Maria
Bethania para tocar, procurou desesperado a musica que tocava naquela hora,
riu, riu, riu, riu, e pensou que pudesse ser alegria o que sentia, alegria que
não se sabe de que, mais que parecia alegria, pelo menos teria sido para isso
que levantara, para o que é claro, mesmo que não se tenha luz, o que é limpo, mesmo
diante de tanta bagunça, para o que não é torto, pois fora direito seu o que
fizera, e fizera direito, para o que não é indeciso, mesmo sem saber o que
fazer de tudo aquilo, estava decidido não mais procurar por amor onde não
tinha.

III

O que
mais dói, é ver a constante morte das coisas.

L.N.B

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